Mais um pouquinho de Drummond nesta quarta-feira de cinzas... Vamos falar um pouco sobre o amor...
O amor foi à função. Bebeu, cantou e bailou: estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte o amor bailou e cantou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas. O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas, que ele não apanhava, gerânios que oferecia às crianças e às mulheres. O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre. Havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-lhe, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo, aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir, gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência; e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas e ninguém pôde ver as partículas. Foi sepultado formalmente no fim do mundo, que é pra lá da memória. Ninguém localizou, mas todos falavam nele. O amor virou um sonho, uma constelação, uma rima e todos falavam nele. E ressuscitou no terceiro dia.
Carlos Drummond de Andrade
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E agora, algumas palavras sobre essa Odisseia:
O título do texto de Drummond remete ao poema épico Odisseia, poema heroico narrativo atribuído a Homero. No caso de Drummond, a composição não é verso, mas ele se apropria do gênero épico (enfatizado pela escolha do título) para narrar as “aventuras” do amor, o protagonista de seu texto, o herói dessa Odisseia.
Como gênero narrativo, predomina no texto a ação, o movimento (por isso o uso quase exclusivo de construções verbais).
O amor vai à função, canta, dança, bebe (no dia seguinte só dança e canta, porque a bebida o deixou excitado e, por isso, teve de ser levado para casa e preso no quarto “para que repousasse”).
O amor é ativo (viaja), espontâneo (brinca, fazendo piruetas), criativo (faz trocadilhos), artista (esculpe). O amor também é poliglota, do que se poderia inferir que existem várias linguagens (“formas”) do amor, sendo caracterizado, também, por sua gratuidade (“criava línguas e ensinava-as de graça”).
O amor é uma trégua entre as guerras (“pararam de guerrear para abraçá-lo”) e é um bem que não pode ser comprado (“jogavam-lhe moedas que ele não apanhava”). Ele é vivo, presente, eternamente jovem: “era sempre primavera em seus modos e falas”; “não adoecia nem ficava mais velho”.
Praticamente no meio do texto, a narrativa, de certa forma, modifica-se. Em contraposição à vivacidade do amor (e talvez por isso), entra em cena a violência. Por ser tudo o que é, o amor começa a ser invejado e torna-se alvo de calúnias. Por isso, as autoridades legais (muito provavelmente, pelo que se depreende do contexto) cercam sua casa de madrugada (foi um crime premeditado, portanto), colocam um saco preto em sua cabeça (para que não visse para onde estava sendo levado – o que é prática comum em casos de sequestro), levam-no para um morro próximo a um abismo, fazem um interrogatório (provavelmente para que ele confirmasse as denúncias que devem ter sido feitas) e, depois de baterem-lhe, jogam-no no precipício. O amor se despedaça, mas se recompõe. Novamente é preso. O autor-poeta passa, então, a descrever todo o “ritual” de tortura pelo qual o amor passa, em um resgate, talvez, do período ditatorial brasileiro, em que a tortura era prática corriqueira entre os que trabalhavam para o regime: “aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos”. Como resposta, o amor sorri, em atitude oposta ao que se esperava em uma situação como essa.
Como o amor não sucumbisse às torturas, quebram-no em “mil partículas” (é o amor estilhaçado, sempre presente nas composições amorosas, principalmente naquelas que falam do amor perdido). Por fim, sepultam-no no fim do mundo, que fica “para lá da memória”. Mesmo assim, todos continuam a falar nele, o que é frisado textualmente pela repetição (duas vezes no mesmo período) de “todos falavam nele” (o autor faz uso desse recurso para enfatizar a ideia de que, mesmo sepultado em um lugar distante da memória, o amor não foi esquecido).
O amor vira sonho (algo de inconsciente, talvez), constelação (etéreo), rima.
O texto é finalizado com uma elevação do amor a uma categoria divina, evidenciada por meio de uma intertextualidade com o texto bíblico: assim como Jesus ressuscita ao terceiro dia, o amor também ressuscita, mantendo-se vivo para sempre entre nós.
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